05 ago 19

Fórmula vencedora: A vida notável de Jean-Paul Driot

Após o falecimento, na sequência de uma longa batalha contra a doença, de um dos mais admirados diretores de equipa do ABB FIA Formula E Championship, recordamos a vida do fundador da DAMS e da e.dams, Jean-Paul Driot, e desvendamos o segredo do seu sucesso numa extraordinária carreira no automobilismo. 

"O automobilismo nunca foi o meu trabalho principal. Sempre o considerei como a minha paixão", disse o falecido fundador da DAMS e da e.dams, Jean-Paul Driot, ao avaliar o trabalho da sua equipa na via das boxes do E-Prix de Roma em 2018. Nessa altura, Driot era o diretor da equipa Renault e.dams - a escuderia de maior sucesso na história do ABB FIA Formula E Championship. Com três títulos por equipas consecutivos no campeonato de corridas elétricas e um título de pilotos para o líder da equipa Sébastien Buemi, o carismático francês fica na história como um dos mais lendários líderes da Formula E.

Após o seu falecimento na sequência de uma longa batalha contra a doença, recordamos a notável carreira de Driot nas corridas, desvendando como é que ficou viciado no automobilismo depois do "empréstimo" do Mustang do seu pai em 1968, porque é que agarrou a oportunidade de se envolver na Formula E antes mesmo de arrancar, e revelamos o segredo por detrás do seu extraordinário sucesso no campeonato de corridas elétricas.

Antes de se dedicar inteiramente à sua própria equipa de corridas, a Driot Associes Motorsport (DAMS), Driot trabalhou como comerciante internacional de petróleo entre 1980 e 2012. "Eu comecei (no automobilismo), porque sempre me interessei pelo desporto motorizado - é uma forma de competir e lutar com outros na pista", admitiu em 2018.

Mas o seu interesse nas corridas remonta muito para lá do nascimento da sua primeira incursão no desporto. Tendo crescido no Maciço Central de França, Driot costumava conduzir pelas sinuosas passagens de montanha com o seu pai desde muito novo. "O meu pai e eu costumávamos divertir-nos bastante a conduzir por ali", recordou com um sorriso. 

"A memória mais antiga que tenho é do meu pai a conduzir um Mustang em 1968. Lembro-me que era um carro bastante raro de se ver em 1968 com seu grande V8 - tinha muita potência e presença.

"Tirei o carro ao meu pai, fui conduzi-lo e quase bati com ele! Depois, quando já sabia um pouco mais, comecei a participar em rallies aos 18 anos. Corri assim que tive idade para conduzir!

"Eu sempre gostei da competição. Tenho especial interesse no automobilismo pelo facto de nunca teres 100 por cento dos parâmetros nas mãos", acrescentou.

"A memória mais antiga que tenho é do meu pai a conduzir um Mustang em 1968.  Tirei o carro ao meu pai, fui conduzi-lo e quase bati com ele! ... Tenho especial interesse no automobilismo pelo facto de nunca teres 100 por cento dos parâmetros nas mãos."
Jean-Paul Driot, fundador e proprietário da equipa DAMS

Em 1987, Driot fundou a sua primeira equipa na Formula 3000, originalmente sob o nome de GDBA, antes da equipa adotar a denominação DAMS em 1989. A equipa ganhou títulos em 1990, 1993 e 1994 sob a liderança de Driot. Enquanto continuava concentrado na Formula 3000, o diretor da equipa começou a expandir o seu portfólio de corridas.

Voltando a sua atenção para tudo, desde corridas de carros desportivos à GP2, passando pela Formula Renault V6, a World Series 3.5 e a A1 GP series, Driot começou a trabalhar em estreita colaboração com o fundador e CEO da Formula E Alejandro Agag em 2014, fundando a e.dams - um das equipas fundadoras do campeonato de corridas elétricas.

"Sou grande amigo de Alejandro e Alberto - fomos adversários na GP2 há alguns anos", disse Driot, refletindo sobre o seu envolvimento inicial na Formula E. "Podíamos ser adversários na pista, mas confraternizávamos e jantávamos juntos muitas vezes. 

"Certa noite, no Bahrein, eu estava sentado com Alejandro depois do jantar, com vista para o mar, quando ele me disse: "Espero que me acompanhes se eu sair e organizar a Formula E." Então eu disse, "se vais organizar a Formula E, como podes fazer isso sem mim!"

"Ao mesmo tempo, eu também conhecia alguém que desenvolveu um monolugar elétrico - uma empresa chamada Formulec - e recomendei que ambos se encontrassem."

"Alejandro alterou imediatamente o seu voo para ir a Paris e se encontrar com ele. Foi uma base muito boa, porque tudo já estava feito. Por isso, estou a bordo desde o início."

A partir desse momento, Driot começou a estabelecer o seu novo projeto e.dams, em parceria com o tetracampeão da F1 Alain Prost, para obter o apoio da gigante construtora francesa de automóveis Renault para formar a Renault e.dams. No espaço de três anos, a equipa viria a dominar o campeonato de equipas da Formula E, ao assegurar títulos consecutivos entre 2014 e 2017 e um título do campeonato de pilotos para o líder da equipa Sébastien Buemi em 2016. 

"Correr não é apenas uma questão de técnica. É preciso ter o carro certo, a tecnologia certa para competir ao nível certo. Mas acima de tudo trata-se de gestão de pessoas", revelou Driot quando questionado sobre o segredo do sucesso da sua escuderia e.dams.  

"Desde os pilotos aos engenheiros e mecânicos, todos eles sentem a mesma paixão ou não fariam isto se assim fosse. Sentes e ages de acordo com a personalidade de cada um para que todo o grupo trabalhe em conjunto."

"Porventura muitos consideram ser um pouco desonesto perceber o espírito das pessoas que trabalham contigo para as aproveitar ao máximo. Mas é muito importante proceder desta forma porque é assim que garantes a obtenção dos melhores resultados."

Com a saída da Renault da Formula E no final da temporada 2017/18, a equipa e.dams de Driot assumiu a empresa irmã Nissan, orientando a nova participante e construtora japonesa de automóveis na sua época de estreia no campeonato de corridas elétricas.  

"Jean-Paul nunca recusou um desafio e os seus resultados falam por si", disse Michael Carcamo, diretor global de desporto motorizado da Nissan.  

"A sua organização foi um parceiro incrível para a Nissan. Foi uma honra trabalhar com ele e aprender tanto sobre este desporto."

"Os paddocks do desporto motorizado mundial perderam um amigo muito querido. Em nome da Nissan, prestamos as nossas condolências à sua esposa, aos seus dois filhos, a toda a sua incrível equipa em Le Mans e aos seus muitos amigos e colegas de todo o mundo."

Apesar da doença, Driot esteve presente nos E-Prix de Marraquexe, Paris e Berna durante a temporada 2018/19, além de ter participado na conferência de imprensa pré-evento na capital suíça, onde a sua equipa viria a garantir mais um pódio antes de terminar a época em segundo lugar na classificação por equipas.

Contudo, apesar de todo o seu sucesso no circuito, Driot afirmou que a sua maior conquista estava muito além da pista de corrida. "Penso que o facto de estar casado há 43 anos, ter dois filhos casados e quatro netos - eles são a minha estrutura", disse em 2018. 

"Acho que a melhor conquista da vida é teres a tua estrutura a funcionar perfeitamente bem e essa é a melhor conquista da minha carreira."

"Nos negócios, ficas feliz ao assinar contratos, depois ganhas uma corrida, depois um campeonato, depois outra corrida - é uma fórmula. O exemplo que dei não é uma fórmula, é a tua vida."